Mata de Albergaria – E a Bússola perdida.

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Nas maiores e mais importantes decisões da minha vida as emoções sempre pesaram mais que os fundamentos da razão. Mesmo quando as vozes da razão indicavam outro caminho, eu persistia em escutar os subtis murmúrios da voz da intuição. E estou absolutamente certa que aí reside o conforto que sinto em relação ao passado, a todas as decisões que me conduziram a este presente e à confiança com que mantenho os olhos postos no futuro. É a certeza de quem sabe que, independentemente das dificuldades, olhando para dentro de si, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor esforço, (re)encontra o caminho e retoma ao seu propósito de vida. Aquilo que eu gosto de chamar,  retomar ao km0.

Dito assim até parece fácil. Mas não, não é. Quem já não sentiu a desorientação de ter perdido a sua bússola interna? Quem já não teve outra solução que não a de seguir. Aceitar e seguir, como o único caminho. A solução única. Passo pesado, um seguido ao outro, na esperança que um dia, não se dê conta desse esforço e o caminho se faça leve. E quando esse dia chega e olhamos para trás, fica a alegria do reencontro com a nossa essência e a certeza do que diz o velho ditado, o que não mata, fortalece.

O mundo exigente em que vivemos, a exposição ao ruído contínuo, o excesso e velocidade de informação, as rotinas que se operam à velocidade da luz, a exigência de nos apresentarmos como seres (pouco humanos) eficientes, obrigados diariamente a fazer mais e melhor com menos, bloqueiam-nos as emoções. Bloqueiam esse canal primordial e directo de acesso a nós, às nossas emoções, à nossa capacidade de decidir, ouvindo aquele sussurro que vem da alma. Distanciam-nos da nossa bússola interna.

Quando isso me acontece há uma estranha força que me atrai para as montanhas. Corpo pesado, alma leve, é nelas que, passo a passo, mergulhada no ramalhar das árvores e no murmúrio das águas, me devolvo ao que sou e retomo ao meu km0.

Partilho este meu último reencontro pela Mata de Albergaria no Parque Nacional da Peneda Gerês – a minha casa. O percurso realizado, de natureza circular, teve início e fim junto à Portela do Homem, exatamente em frente ao antigo posto fronteiriço com a vizinha Espanha. Mergulhando na densidade desta mata única que integra talvez a parte mais deslumbrante da Geira Romana, pisam-se os passos dos nossos antepassados. Pensa-se que a inauguração desta via remonta ao Sec.I, com o intuito de facilitar a deslocação Romana na região, particularmente a Bracara Augusta (49,5km) e a Astúrica Augusta (273km). Decorrida sensivelmente uma hora de caminho, em plena Mata de Albergaria, atravessando várias e deliciosas pontes sobre o rio Homem, encontra-se o entroncamento que continua, atravessando a ponte de madeira e tomando o estradão à direita pela Geira Romana, até ao Campo – Gerês. Tomando o caminho à esquerda, e passando uma antiga casa florestal, apresenta-se uma ligeira subida que nos leva até à estrada de alcatrão, de volta à Mata de Albergaria, e nos faz chegar ao ponto de partida, a Portela do Homem.

Espero muito em breve voltar a este lugar que me é tanto. Não por necessidade de acertar os ponteiros da bússola, mas por outra necessidade igualmente imperiosa, a de partilhar o bonito da vida com aqueles de quem gostamos muito.

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