“Vezeiras” e a bravura da D. Ilda

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Aquela ali é a D. Ilda.

Qual das quatro? Isso não interessa nada. O que interessa e o que fica é a sua gentileza, a simpatia, a forma simples e correta como as palavras lhe correm da boca embaladas por um sorriso franco e leve. O que importa é a sua bravura, o seu orgulho, a sua astúcia e perspicácia. O que importa mesmo é que, é a ela que devo este dia que me faz acreditar que todos temos o nosso lugar, o lugar onde nos reconhecemos, onde vamos ao mais fundo de nós e de lá garimpamos a felicidade que nos alimenta os dias.

Acho que comecei pelo fim. Recuemos um pouco. Voltemos ao início do dia de hoje que nos reservava um lugar cativo para assistir pela primeira vez à subida da “Vezeira” pelas ruas do Gerês, não fosse termos chegado atrasados e ter perdido este evento  que se repete pela décima quarta vez na Vila que dá nome à nossa jóia da Coroa – O Parque Nacional da Peneda Gerês.  A  subida do gado aos pontos mais altos da serra onde se encontram melhores condições de pastoreio no mês de maio e o seu regresso no fim de setembro é um costume secular a que se dá o nome de Vezeira, pelo facto de os pastores fazerem a vigilância das manadas dia e noite, à vez. Cada duas cabeças de gado corresponde uma noite de vigilância da manada toda.

Uma paragem no café para redefinir planos e aquecer um pouco, só deu lugar ao desânimo. A chuva caía miudinha e persistente. E eu que não lido bem com imponderáveis, reajo mal ao que me foge do controlo e sou pouco recetiva a mudanças de rota, dei comigo a ter uma conversinha num tom pouco ameno com o S. Pedro. Perder a passagem da Vezeira já era suficiente para me deixar mal humorada, mas a chuva persistente que não permitia ponderar tão pouco uma breve caminhada já era responsabilidade de alguém que não minha. Às vezes sou tão pouco simpática e tão quadrada. 🙂

No mínimo uma volta de carro e uma passagem pelo Campo do Gerês atenuava o impacto de uma deslocação perdida, por isso lá fomos, ainda na esperança, pelo menos,  do tempo mudar.

Não tenho a certeza se em viva voz ou em surdina, sei que fui rezingando umas coisas até ser interrompida  por uma súbita paragem dos dois ou três carros à nossa frente. Não tive tempo para rezingar mais. Em milésimos de segundo percebi. Ali estava a Vezeira a passo pesado e lento à nossa frente. Gado e pastores donos do que é seu, a caminhar vagarosamente Mata de Albergaria fora em direção à serra alta.

Saltei do carro e fui…

Colei-me lado a lado do grupo de mulheres que me receberam de sorriso largo e sincero, apesar de eu ser uma intrusa. Ali só seguia gado, pastores e respetivas famílias. Chapéu de palha, cajado na mão, grandes e pequenos, naquele compasso se percebia o sentido de comunidade, de família, de partilha, de festa, de alegria, união e comunhão.

Era mesmo ali que eu queria estar.

Foi à D. Ilda que me dirigi,  num tom demasiado à vontade para aquilo que é habitual em mim, para lhe perguntar se seria abusivo fazer-lhes companhia até ao lugar onde pretendiam deixar o gado – o curral de maceira. Nao tive tempo para me sentir constrangida, aquele sorriso terno e presença de líder não deixou margem a dúvidas ” Claro que sim! Vocês vêm e almoçam connosco, não falta comida!”.

E lá fomos. E lá vivi uma das experiências mais genuínas e gratificantes destes meus anos de caminhadas por essas serras.

Não há palavras que o descrevam, nem devo fazê-lo, porque o que ali se viveu é daquela comunidade que teve a amabilidade de nos receber tão genuinamente e partilhar os seus rituais, as suas crenças, os seus costumes que passaram e passam de geração em geração.

Ficam algumas imagens de um dia que não esquecei certamente. D. Ilda não se esqueça de nós também.

Deixo o meu agradecimento a todos, miúdos e graúdos na pessoa da D. Ilda e do Sr. José Cosme e da pequenina Maria de Fátima, com quem tanto aprendi e vivi. Até para o ano!

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O forno, que eu achava ser um forno de pão, mas é o abrigo dos pastores

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Interior do forno, local de pernoita dos pastores

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