Porto. Ao encontro da Amizade.

Antes de chegarmos ao Porto – a mais bela cidade do mundo, temos de dar um saltinho à Madeira – a mais bela ilha do mundo. Prometo que a viagem não será muito longa. O voo não costuma exceder as duas horas, mas esta viagem levará uns 18 anos.

18 anos de regresso ao passado, levam-me até o sabor da natinha e do capuccino que se mexia e remexia ao ritmo lento de dois dedos de boa conversa, na casa deles, ou ao sabor do pernil assado, aos domingos, na nossa casa, que se prolongava à mesa, normalmente, em conversas separadas. Eles para um lado, nós para o outro. E de vez enquando, lá se ia metendo uma colherada na conversa alheia. Eram tempos de amizade.

Era o tempo do novo. O tempo do acreditar. O tempo do fazer nascer. Por ali se desenvolveu a minha primeira gravidez, e muito embora a minha metade-mais-que-perfeita tivesse vindo nascer ao Porto, foi lá que aprendeu a sorrir, a gatinhar e a criar os seus primeiros vínculos afetivos. Até hoje, eles continuam a ser a Tia T. e o Tio N.

Foi lá que os vi (a eles – os meus amigos) projetarem o seu casamento. Nós já levávamos o nosso a meio caminho. Ela tinha de estar com o tom de pele perfeito. O dourado perfeito. E estava mesmo. Talvez não fosse o dourado que a fizesse mais bonita. Era a felicidade que lhe ia no peito e se projetava naquele sorriso rasgado e olhar cintilante. Ele vivia aqueles tempos de preparação do grande momento, aparentemente (e acho que só aparentemente) de forma mais descontraída. Sempre com aquela gargalhada solta de quem transpira genuinidade.

Quando regressamos ao continente prometemos fazer das  2.30h que separavam as nossas terras, os 30 metros que separavam as nossas casas na Ilha. Claro que “do dito ao feito, ainda leva muito jeito” e esforço. Mas conseguimos. Esta amizade alimentou-se por estes longos 18 anos. Assistimos à concretização de sonhos, nasceram as duas princesas, nasceu a minha segunda metade-mais-que-perfeita. Os nossos filhos foram crescendo sabendo que tinham uns amigos muito especiais que viviam um pouco longe. E sempre que nos encontrávamos era uma festa. Cá por casa volta e meia surgia a “pressão” – “Quando é que voltamos a casa do Tio N. e da Tia T.” Volta e meia regressávamos a Mira Daire, a primeira paragem era sempre “O Parente”, o café/restaurante dos pais dela, que nos recebiam como se fossemos da casa. Ali não cheirava a comida, cheirava a família.

Viram-se também sonhos desvanecerem.

A minha primeira grande aventura, depois do meu divórcio, foi com destino a Mira Daire. Nunca gostei de conduzir, para longe, sozinha. A consciência de ter um péssimo sentido de orientação deixa-me insegura. Mas sabia que lá encontraria o capuccino e o pastel de nata à espera, embalado num abraço apertado e num “estamos aqui”.

Agora sim, voltamos ao Porto. Na última viagem a Mira, prometemos que nos havíamos de encontrar mais amiúde, até porque a criançada o exigia. As despedidas naquela última viagem foram dolorosas para eles. Rolaram umas lágrimas e nós mães sentimos o mesmo aperto deles no coração.

“Vamos ao Porto”. E eu disse cá pra mim “nem que chovam pedras”. Raios que o destino às vezes gosta de nos pregar partidas. Nessa semana ficamos os três doentes. Nunca acreditei em determinismos puros e penso que a diferença reside naquilo que fazemos com o que a vida nos dá. Por isso demos umas voltas ao destino e lá fomos nós ao encontro da amizade.

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Estação de Paredes
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Primeira viagem de comboio do babyboo
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Estação de S. Bento

Marcamos encontro no Magestic Café…Depois de muitos abraços, risos, e palavras atabalhoadas, lá nos conseguimos conter para entrar em tão nobre espaço.

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A bondade é contagiosa e genética.

Daqui em diante tudo se resume a um “vamos viver o mundo em meia dúzia de horas”. Batemos muita rua a pé, com destaque para a belíssima rua das flores, alguns subiram a Torre dos Clérigos. Outros ficaram cá por baixo a vaguear à conversa. Iniciamos conversas que deixamos a meio, tal era o ímpeto de contar tudo. De viver tudo.

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Torre dos Clérigos
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A mítica Fonte dos Leões

Impressiona-me a forma como eles se gostam. Como eles se ligam. Quem os visse diria que eram primos e que conviviam todos os dias. Que belo legado estamos a deixar aos nossos filhos. O legado da amizade. Da amizade simples, que se alimenta do bem estar do outro. Da amizade que se alicerça no respeito pela diferença. Da amizade que diz “estou aqui” não de forma retórica, mas efetiva, mesmo que o “aqui” posssa ser um “aqui” distante fisicamente, mas perto do coração. Da amizade que ao silêncio responde com um “tu estás bem?”. Porque no fundo é isso que importa quando se gosta verdadeiramente de alguém. Da amizade que não julga, tenta, antes, compreender. Da amizade que também não acena com a cabeça a tudo, mas que quando acena um “não” é um “não” coerente, com legitimidade moral para o afirmar. Da amizade que quando diz “sim” é um “sim” verdadeiro, que sai diretamente pela voz do coração, não um “sim” de conveniência.

Gosto-vos. E por isso as despedidas são sempre tão difíceis. Mesmo quando, como desta vez, afirmamos “vá…sem dramas…Até já!”

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Até já, meus amigos!

 

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4 comentários sobre “Porto. Ao encontro da Amizade.

  1. Eduarda Machado disse:

    Adorei! Sem dúvida que os locais e as pessoas que o humanizam, não só acrescentam um valor imensurável ao nosso crescimento pessoal, como nos fazem reencontrar connosco próprios. Uma espécie de mindfulness em movimento, com todos os sentidos despertos, caminhando e contemplando como se vissemos o mundo pela primeira vez e nesse caminho, caminhando, renascessemos!

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    1. Kilómetro Zero disse:

      «como se vissemos o mundo pela primeira vez e nesse caminho, caminhando, renascessemos!» Este é realmente o espírito do Kilómetro Zero. Encontrar nos lugares, nas pessoas e nos sentimentos, uma forma de regressarmos ao km0 da nossa existência, criando inúmeras oportunidades de nos reconstruirmos. Grata pela reflexão tão assertiva, Eduarda Machado. beijinhos

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    1. Kilómetro Zero disse:

      Querida Emília, que alegria ler este teu comentário. És uma Mulher de referência para mim, por isso dou muito valor à tua forma de ver a vida, com a experiência que esta te deu. Muitas saudades de caminhar a teu lado. Grande abraço

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