PNPG – (Parte II) – Senhora da Peneda

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Dois meses sem calçar as botas é demais! Pedir-me abstinência da montanha é algo que me exige um esforço considerável. Muito maior do que subir a montanha, mesmo nas ocasiões em que reclamo muito.

Ocorre-me um episódio com o meu filho mais velho, de que dificilmente me esquecerei. Estava ele no primeiro ano de escola e mais uma vez eu tinha sido alertada para o facto dele conversar muito na sala de aula. Nesse dia, à noite, enquanto lhe dava banho (não sei explicar, mas as conversas sérias, normalmente, ocorriam durante esta rotina), conversei com ele e ameacei-o de castigo se voltasse a ter uma queixa daquela natureza…Os olhitos dele cheios de água, fitaram-me e com o ar mais sério que lhe podia reconhecer e enquanto o queixo lhe tremia, respondeu-me: ” tu não percebes…se as palavras ficarem presas aqui – apontando com a mãozita para a garganta, depois quando saem é muito pior”.

Eu entendo-te meu filho. Entendi-te na altura e entendo-te cada vez melhor, porque me revejo em ti. Não será por isso que deixarei de ser uma mãe chata. Acho que não tens por hábito acompanhar o Kilómetro Zero da mãe, mas um dia, no dia certo, vais ler isto e também tu me vais entender.

Obrigar-me a encostar as botas, tem um efeito semelhante a mandar calar o meu filho quando ele tinha 6 anos. Quando as calço, é realmente muito “pior”. É que elas ganham vida própria.

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A Senhora da Peneda, de que ouço falar desde criança, é um lugar onde o divino e o terreno coexistem em plena harmonia. Aquele silêncio podia bem ser a banda sonora perfeita do filme da minha vida.

Partimos frente ao Santuário, escadório acima, com os músculos a reclamar contra as botas, sem sucesso. Lá em cima contornamos à direita e começamos a subida de 3km.

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O meu sentido de orientação, ou melhor e para ser realmente justa, o meu sentido de desorientação, não me permitiu perceber desde logo o caminho que estávamos a tomar, não obstante o mapa e as precisas e preciosas indicações da simpática rececionista do Hotel da Peneda, estava longe de perceber que havia de estar lado a lado com aquelas quedas de água e muito menos imaginava que nelas havia de matar a sede.

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O caminho não engana até ao ponto a que nos determinamos, o trilho está bem sinalizado e segue pela calçada outrora utilizada como via de comunicação entre a Aldeia da Peneda e a Bouça dos Homens.

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Creio que terá sido a primeira vez que fiz 3km sempre em ascenção sem emitir qualquer ruído de queixume. Antes, o silêncio do deslumbramento e o sorriso de regozijo quando percebo que estamos a contornar a célebre frondosa Fraga da Meadinha, de reconhecida importância nacional e internacional para os amantes de escalada.

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Paramos várias vezes, não pelo cansaço, mas vencidos pelo deslumbramento de estar face ao imenso penedo que de cá de baixo nos parecia tão distante e inacessível. Afinal ali está ele aos nossos olhos, debaixo dos nossos pés. A calma do  azul limpo do céu a contrastar com o granítico rochoso, dá-nos aquela sensação de estarmos a ocupar um lugar tão ou mais divino quanto o Santuário que já não conseguíamos avistar com a densidade da vegetação que atravessamos.

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Felizmente tenho por hábito, de quando em vez, parar e olhar para trás. Faço-o no trekking, como o faço na vida e é-me sempre bastante útil. Desta feita, para ter a noção do quão distante se apresentava a aldeia da Peneda, do quanto já tínhamos subido e do quanto havíamos, pouco mais tarde, ter de descer.

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Sem o mínimo de cansaço, com a maior das tranquilidades, o maior sossego de alma e  a maior paz no coração, eis que se nos apresenta aos olhos aquele que havíamos determinado como o nosso ponto de chegada – “O Pântano”, nome dado à antiga mini-hidríca, que fornecia energia à aldeia da Peneda, situada no lugar de Chá do Monte.

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Por ali ficava o dia todo, não tivéssemos já traçado outros objetivos para o dia. Se soubesse o que me esperava neste lugar talvez tivesse sido menos ambiciosa e tivesse ficado por aqui até ao limite da luz do sol nos garantir a descida até à aldeia.

Este pequeno troço de ida e volta da Senhora da Peneda ao “Pântano”, faz parte do Trilho de pequena rota – PR2, Trilho da Peneda. Contudo, a Associação de Desenvolvimento das Regiões do Parque Nacional da Peneda Gerês não recomenda que o troço seja realizado na totalidade por insuficiência de sinalização, a partir deste ponto. Uma vez que não estávamos na posse de GPS, adotamos, assim, por um código de conduta consciente. Aguardamos, com expectativa pela sinalização total do trilho de acordo com as normais internacionais.

A este lugar estão associadas uma série de lendas interessantíssimas. Diz uma delas que, no dia da Romaria à Senhora da Peneda, as moças solteiras se aventuravam na sorte de atirar uma pequena pedra em direção ao rochedo que está no centro do lago. Aquela que tivesse a audácia fazer cair a sua pedra em cima do rochedo, casaria nesse ano.

Fiquem descansados os que me querem bem, juro que não tentei a “sorte”.

Para mais informações consultar:

http://www2.icnf.pt/portal/turnatur/visit-ap/pnpg/pr2-peneda

Até já!

 

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