Ela é a Aldeia Presépio.
Sempre quis conhecer Piódão, no Inverno. Imaginava-a o postal de Natal perfeito. Imaginava-me a calcorrear as estreitas ruelas e escadinhas sinuosas, ladeadas pelas elegantes casas altas de xisto, telhados pretos e a vida a espreitar das janelas, daquele azul perfeito que conhecia das fotos. Usaria um cachecol listado de cores garridas e gorro a condizer. Um sobretudo de lã e as minhas botas de montanha. Havia de cheirar a inverno e as minhas fotos haviam de cheirar a Natal. Nesse natal em que visitaria Piódão, os presentes haviam de ser personalizados – “de mim para ti, da Aldeia Presépio”.

Sou uma criança de 41 anos. Quase todos os dias tenho provas disso. Felizmente do contrário também, o que me permite ir apurando uma média interessante. Manhã cedo, deixamos para trás e sem pressas a magnífica Aldeia das Dez, depois de no dia anterior termos trilhado os 10km do PR3 – “Na pegada do Ermitão”. Levo comigo a paz do magestoso monte do Colcurinho. Vou de olhos postos na direção em que me aparecerá a primeira vista sobre Piódão. Curva, contra-curva. Curva, contra-curva e a minha ansiedade-menina cresce e o enjoo também. Na hora certa (e antes que a coisa se complique), ali está Piódão aos meus olhos. Ainda estamos a uma distância suficiente para que a primeira imagem me caiba na palma da mão, mas foi no coração que a guardei. O cenário perfeito. O presépio perfeito. As casas em cascata dispostas encosta abaixo, a brancura da Igreja, tal como a imaginei, a magistral Serra do Açor de berço a uma obra de arquitetura perfeita. Demoro-me neste primeiro contacto visual e umas e outras curvas mais abaixo vamos parando porque eu preciso de tempo para gravar as imagens que se me oferecem aos olhos à medida que nos aproximamos.

Era quase meio-dia quando chegamos. O relógio da Igreja branca que se destaca imaculada entre o xisto, assim o dizia. No jogo entre a cal e o xisto não sei quem sai a ganhar. Sei que é um jogo perfeito de se ver.

Era meio-dia. Estávamos no pico do calor. As temperaturas rondariam os 35 graus. Não. Não era Inverno. Estávamos em pleno mês de julho. Mas no meu coração fez-se Natal. O Natal que me esforço por cultivar. O Natal que se faz de um coração desperto de uma alegria inesperada ou de um gesto de ternura alheio. Aquele natal que acontece tantas e tantas vezes e tantas e tantas vezes não valorizamos convenientemente.










Teria ficado o resto do dia por ali, a inventar histórias dos tempos em que Piódão fora um antigo povoado medieval, “Casas Piódam”. Mas ir a Piódão e deixar por conhecer Foz D`Égua não é coisa digna de desculpas.
É em Foz D´Égua que a Ribeira de Piódão se cruza com Chãs de D´Égua dando origem à praia fluvial mais genuína e bonita que já conheci. Impossível resistir ao assédio das águas verdes e geladas que correm debaixo da engenhosa ponte de xisto. É a partir deste cenário Idílico que me despeço desta região, com a certeza que a sua riqueza e diversidade merece muito mais que uns escassos e apressados dois dias.




Simplesmente magistral. Adorei.
CurtirCurtir