Há um pouco mais de dois anos que partilho a experiência do trekking com alguns desconhecidos que foram tomando o lugar de amigos e me obrigaram a reconfigurar o sentido dado à palavra amizade, ampliando-a a espaços que julgava inexistentes. Daqueles amigos em relação aos quais não é necessário saber a vida toda de cor, conhecer os seus maiores segredos, os maiores medos ou as maiores conquistas. Muito menos interessa a profissão, os cargos que ocupam ou os títulos académicos que detêm. Aqueles amigos que conquistam lugar a este estatuto por quanto marcam a nossa existência com os seus ensinamentos, com a sabedoria das suas experiências generosamente partilhadas no fortuito do acaso ou do determinismo da vida. Aqueles amigos que quis o destino cruzassem o nosso caminho e deixassem a sua marca numa reflexão partilhada, num silêncio consentido e cúmplice, num olhar de compreensão, numa história contada onde a identidade das personagens não é fundamental. Aqueles amigos que ficam para sempre, mesmo que a sua passagem seja breve, porque deixam uma parte de si e levam uma parte de nós. Aqueles amigos que desconhecem a diferença que fazem em nossas vidas, porque a sua entrega é inconsciente, descomprometida, desprovida de exigência, despretensiosa e simples. Apenas a alegria da comunhão. Apenas a dádiva dos momentos vividos. Apenas a leveza das coisas simples.

Sexta-feira 13, um bom pretexto para celebrar a amizade em mais dois dias intensos de partilha por terras de Montalegre. Que alegria voltar àquele Monte Alegre, aos cheiros, às cores e aos sabores das Terras de Barroso! Ouvi dizer, durante longos anos, que o ar de Trás-os-Montes é diferente. Nunca percebi muito bem o significado destas palavras, até por estes dias, no regresso do Castelo, já madrugada fria, depois de esconjurar os males e receber a benção do carismático Padre Fontes, ter a certeza de que se me tivessem levado de olhos vendados para aquele local, havia de descobrir pelo ar que respirava que estava em terras transmontanas. 
E e não fosse o ar, havia de ser o pão, aquele inconfundível, irresistível e viciante pão caseiro, que ainda se guarda na masseira e se envolve em guardanapos de imaculado pano branco para levar à mesa.
E se não fosse o pão, haviam de ser os castanheiros pesados de ouriços gordos a anunciar uma mão cheia de rijas castanhas, como rijo o povo que as cuida todo o ano.

E se não fossem as castanhas, haviam de ser as manadas de barrosão que fazem ecoar os sinos pelas ruas, e caminham a passo lento, em direção aos pastos, sob o comando régio da nobre senhora que faz destes os seus dias, seja quente, seja frio, faça neve ou faça sol.
E se não fosse o gado, havia de ser um simples “bô”.

No primeiro dia, quais contrabandistas, na rota do contrabando – Trilho de Vilar de Perdizes – PR7, fintaram-se montarias ao javali para chegar à aldeia vizinha de nuestros hermanos – Videferre. No segundo dia, para meu regozijo regressamos às margens da Barragem da Paradela, para fazer, em pouco mais de sete horas, um extenso e belíssimo percurso circular de enorme diversidade paisagística, infelizmente e para grande tristeza nossa, pontuado aqui e ali por vestígios da passagem do fogo. Estávamos distantes de saber que este dia ficaria marcado como um dos dias mais trágicos na história do nosso país no que respeita a incêndios.



Nota: Para informações mais específicas e técnicas sobre os dois percursos efetuados, recomenda-se a consulta da página “Caminhantes” no facebook.
Por estes lados só se tratam das emoções, do que os olhos vêem e o coração sente.
E se näo fosses tu, serias tu!
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